segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Viagem por Lisboa. O amarelo "28” (Escrevendo e desenhando por Lisboa)


Viagem por Lisboa. O amarelo "28”
(Escrevendo e desenhando por Lisboa)

Agora é só descer 
e eu tenho pressa.
E o Tejo, meu amor, 
e o Tejo lá em baixo 
à minha espera.
Já perdi para trás 
a Graça toda 
e nem nas Portas 
abertas do Sol 
me detive, 
é que é ao pé do Tejo, 
na Conceição, 
que eu quero chegar 
antes da Estrela 
e dos Prazeres distantes.
Não me traves o caminho, 
velho Limoeiro, 
nem tu tenebroso Aljube 
me prendas a marcha 
que só junto à Sé, 
em Santo António, 
eu vou parar um pouco, 
entrar, abraçar na sua casa 
o meu Amigo 
e sigo logo. 

Depois não paro mais. 
E, mesmo que seja 
só por um breve instante, 
da rua da Conceição 
verei, ao fundo, 
por entre o augusto arco 
e um equestre D. José, 
o Tejo todo 
à minha frente.
Agora, é até aos Prazeres, 
no largo, final dos carris.


AntónioFMartins

Sorrir (Poemas acerca de tudo)

Sorrir
(Poemas acerca de tudo)


Sorrir é colorir de verde
uma cidade
é dares aos outros
o bom dia permanente
é gostares de cada um
e em cada um
gostares dos outros todos.

Sorrir, sorrir sempre
é libertares o sol
nos cortinados do teu quarto
é parares a frescura
das manhãs no teu olhar
é dares-te aos outros
e sentires que eles te conhecem.

Sorrir é amar
e dares amor a quem te ama
é teres a idade e o nome
escritos numa estrela
é saberes que o sorriso
é assim como um abraço
que se estende
a cada um a todo o mundo.



AntónioFMartins
1969

Para ti a dor que sinto (Poemas acerca de tudo)

Para ti a dor que sinto
(Poemas acerca de tudo)


Trago da manhã
abraços fortes
para ti, amiga.

Trago o olhar
e a distância que não viste
e a planície.

A planície.

Trago a braços
desse longe o sentimento
e um pouco do que tu perdeste nele.

Trago um trago do sabor
dos beijos mornos,
de gente que tu não conheces.
E o abraço amigo
do amigo
de que eu não te falo
e de que tu não sabes nada.

Trago o longe e o perto
da distância em que te perdes
no meu lamento frequente.

Trago-me.

Trago o canto alegre
dos pardais e o silêncio.
Todo o silêncio e o frio
das noites longas 
dos invernos por dormir.

Trago amiga um sentimento
que não sei dizer
porque o não deixo
e, no peito, 
bem guardada,
trago para ti a dor que sinto.



AntónioFMartins

Cincos de Outubro (Poemas acerca de tudo)

A notícia: Cavaco Silva, Presidente da República, não vai estar presente nas comemorações oficiais da data.
A incontida raiva pelo inaudito comportamento de Cavaco Silva, de total desrespeito pelo cargo que ocupa, de total falta de respeito pelo regime que deveria defender intransigentemente e com a máxima dignidade e ainda pela ignóbil ofensa que faz aos cidadãos, fugindo-lhes descaradamente, levou-me a escrever, hoje mesmo, este poema. Dedico-o aos republicanos que construíram a República, que por ela lutaram e por ela deram a vida, aos que a alimentaram e aos que nela vivem e por ela lutam. Aos que a merecem. E não são todos. Viva a República, viva a liberdade, viva Portugal!


Cincos de Outubro
(Poemas acerca de tudo)


Era todos os anos assim:
Da estátua de António José de Almeida,
ia a República toda em cortejo
e, à frente, num passo já arrastado
no cansaço das memórias
ano a ano repetidas:
os velhos da República,
Morais Soares acima
até à Parada do Alto de São João.

Vigilantes, a PIDE e a polícia
bruta e cinzenta lá estava
a passo do nosso passo.

Era todos os anos assim:
Em cada manhã de 5 de Outubro,
ensinado pelo meu pai, republicano,
eu ia também por aquela Lisboa tão triste
e, um miúdo como um homem,
um miúdo entre os velhos da República
eu vibrava gritando como eles:
Viva a República,
Viva a Liberdade!
Viva Portugal!

Vigilantes, a PIDE e a polícia
bruta e cinzenta lá estava
a passo do nosso passo.

Era todos os anos assim:
O 5 de Outubro da coragem e da memória.
E ali se convocava um a um
— como se alguém pudesse fazê-lo um a um,
todos os heróis da República
aclamados nas vozes já tão cansadas
mas tão plenas de coragem,
dos velhos da República.

E então era de novo:
Viva a República!
Viva a Liberdade!
Viva Portugal!

Era todos os anos assim:
Morais Soares acima
até à Parada do Alto de São João.
Depois era como sempre era:
Viva a República,
Viva a Liberdade!
Viva Portugal!
e um miúdo a correr junto dos homens,
à frente dos bastões de um polícia
bruto, de cinzento e sangue azedo
a fervilhar-lhe nos olhos!

E os velhos da República
abrigados pelos novos,
arrastando-se arrastados,
e os polícias brutos de cinzento
e o bastão e a força bruta
e a PIDE a acicatar
e a prender
e o Comissário, cobardolas, ao longe,
de botas de Cavalaria e pingalim
(Nas ditaduras há sempre
um comissário com botas
de cavalaria e pingalim).

Era todos anos assim:
Ali ao lado, no país salazarento
o 5 de Outubro era um dia sem data,
um dia sem dia,
um país todo em casa,
recolhido em si mesmo.
E eu pensava: um miúdo entre os homens,
entre os velhos da República:
Um dia, todos os 5 de Outubro
vão ser dias de respeitar a liberdade
e a República.
Um dia vai ser!

Agora, este ano, em 2015,
um senhor vindo de longe,
de Poço de Boliqueime
ou lá como se chama o raio da sua terra,
aldeola situada, dizem que no Algarve,
feito Presidente da República,
de uma República há muito feita,
foge, cobarde, do seu lugar,
do lugar que lhe foi dado e não merece.
Nunca mereceu.
Que dirão, lá de longe,
do lugar distante da memória,
os velhos da república,
os heróis da República?

É o medo do povo!
Só pode ser o medo do povo!
Cobardia, seguramente.

Era todos os anos assim:
Morais Soares acima
até à Parada do Alto de São João.
Depois era como sempre era:
Viva a República,
Viva a Liberdade!
Viva Portugal!

E um miúdo entre os velhos da República.


AntónioFMartins
4 de Outubro de 2015


Aqui é o Douro, o Porto (Escrevendo e desenhando pelo Porto)

Aqui é o Douro, o Porto
(Escrevendo e desenhando pelo Porto)


Venho da foz, 
do Atlântico profundo, 
subindo rio acima 
as águas inquietas 
que vêm de longe 
e me tentam empurrar 
de novo até à foz. 

Não me apontes 
a margem 
nem nela 
um abrigado cais 
porque é aqui, 
nos ventos 
e nas correntes fortes, 
que, pela proa, 
o meu barco desafia, 
inteiro, 
este Douro 
quase mar. 

Vindo, 
eu sei lá, 
da memória 
de infinitas lonjuras, 
há sempre 
um qualquer rabelo
a navegar 
num qualquer Douro, 
mesmo que 
a navegar ancorado
no fundo imenso 
dos meus olhos.

Aqui, 
as memórias 
navegam mais 
que os próprios barcos. 

Aqui, 
é o Douro
e a memória. 

O Porto.


AntónioFMartins