terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Lisboa do Terreiro da Praça (Poemas acerca de tudo)

Lisboa do Terreiro da Praça
(Poemas acerca de tudo)


Do Terreiro da Praça
ao Comércio do Paço
passo por aqui e só vejo
que é tudo passado,
quase que só resta o Tejo
e a paisagem toda trocada,
ainda vejo o cavalo e o José
e resiste o Martinho da Arcada.
Do resto, nada!


 António F. Martins

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Deixa que te chame meu filho (Poemas acerca de tudo)

Hoje vi uma das imagens que, a par com a de Aylan Kurdi (o menino sírio, de 2 anos morto na praia), desde sempre, mais me emocionaram. E eu não sou novo. Há milhões de imagens impressionantes que “falam” da guerra, de catástrofes imensas e dramas plangentes, eu sei. Eu sei e vi-as ao longo da minha vida toda. (E eu fiz a guerra). Mas esta que hoje aqui vos mostro, foi um dos maiores murros no estômago da consciência que já levei (e não foram poucos…) em toda a minha vida. Vi nela, se calhar o que mais ninguém verá, não sei. Mas eu vi ali tudo o que eu sou como homem, como cidadão, e, sobretudo, como pai. Provavelmente, ver-me ali como pai foi mesmo o que mais senti e me doeu da força bruta do tal murro. Acho mesmo que foi isso. Exagero piegas? Só exagero? 
Não resisti e escrevi, quase compulsivamente, este poema que aqui vos deixo. 




Deixa que te chame meu filho
(Poemas acerca de tudo)

Deixa, menino, que te chame meu filho. 
Que me deite ao teu lado, 
de cabeça encostada à tua, 
sobre uma qualquer pedra 
que sobre das pedras da tua cama. 

Deixa-me dar-te um beijo, 
terno e suave, 
afagar-te o rosto e, depois, ficar só a olhar para ti 
como quem olha para dentro do mundo. 
Como quem olha em ti, assim adormecido, 
um menino a ser ali, mais que o mundo; 
O universo todo! 
É que só uma alma imaculada
de menino como tu, 
pode adormecer assim, tão serena, 
sobre a dureza rude e fria 
das pedras da tua cama, do teu chão.
Ou será maior que a dureza rude e fria 
das pedras da tua cama, do teu chão, 
a dureza da vida, quando acordas 
e, acordado, tudo é guerra e morte e fome e pedra, 
só pedra, cama e chão, meu filho?

Não te conheço e, meus Deus, 
como fiquei a amar-te agora que te vi, 
assim deitado, tão sereno, 
tão bonito como um filho meu. 
Como poderei esquecer-te, menino, 
deitado sobre as pedras 
das pedras da tua cama, do teu chão? 
Como poderei esquecer 
— agora que te conheci assim dormindo— 
as vezes que ternamente aconcheguei 
os lençóis macios da cama macia dos meus filhos 
e lhes beijei, serenos, o rosto, o sono e os sonhos? 
Como poderei agora continuar serenamente
por dentro dos meus sonhos agitados, 
pensando em ti, adormecido sobre a dureza rude e fria 
das pedras da tua cama, do teu chão? 
Como poderá agora um pai?
Como poderá?

Um beijo pleno de ternura e tanta revolta, 
meu filho agora.


António F. Martins

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Entre a terra e o mar, o meu país (Poemas do mar)

Entre a terra e o mar, o meu país
(Poemas do mar)



Descobrindo, andou sempre perdido o meu país,
entre a terra firme e o mar desconhecido,
entre o perto e a distância e uma foz sempre atlântica,
os brasis, as índias, as partidas e as chegadas
e tudo ali quase acabado no longe e no perto de Alcácer Quibir.


Foi sempre assim o meu país: o tudo e o nada.
O Império todo e os Rossios que sobraram,
metade do mundo encravado no fundo da Europa
e D. João II e o Mostrengo, e o impossível mar
e um português firme, mais que Portugal, ao leme.


E logo ali cruzada no destino a glória e a tragédia,
a descoberta dos mundos todos por achar,
o naufrágio no escorbuto e na sede das miragens,
o longínquo do medo e dos mares novos,
nos mares de Camões nunca dantes navegados,
no mar que de longe, marinheiro a marinheiro,
trouxemos todo para casa  e em tanto dele
todos os dias navegamos e todos os dias
nele naufragando nos afundamos ainda.


Descobrindo, andou sempre perdido, o meu país,
entre a terra firme e o mar desconhecido.


António FMartins

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

E eu que já nem choro (Poemas acerca de tudo)

Um poema que aqui vos deixo e que hoje mesmo escrevi, na sequência das imagens de sem-abrigo que há pouco vi e cujo link aqui publico. Vejam a impressionante carga humana e dramática de cada uma das personagens magistralmente fotografadas por Lee Jeffries:


E eu que já nem choro
(Poemas acerca de tudo)


Um a um,
rosto a rosto,
devagar,
entro em cada rosto,
em cada olhar que aqui vejo,
que me atormenta
e de que já não sei sair,
aprisionado neles
pela vergonha.

A minha vergonha toda
à flor da pele.
Comovo-me.
Mas nem uma lágrima.
é que um homem fica seco
quando sente que a alma,
por instantes,
lhe morre no peito.

E então eu sinto
que em cada rosto,
em cada olhar,
em cada marca profunda
gravada pelo tempo,
no tempo de cada um,
vejo neles, ali à minha frente,
a humanidade toda.
E vergonha,
sinto vergonha.

Um a um,
rosto a rosto,
devagar,
entro em cada rosto,
em cada olhar que aqui vejo.
Secou-se-me a alma aqui.
Talvez perdida no fundo do meu peito
e é só esta dor que agora sinto,
só esta dor que eu não entendo.

E eu que já nem choro.


António F. Martins

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Acontecer acontecendo (Poemas acerca de tudo)

Acontecer acontecendo
(Poemas acerca de tudo)


Eras o pretérito perfeito
e aconteceste.

E, então, incondicional,
chegavas do nosso futuro,
e pretérito, o presente,
subjuntivo acontecia.

Deixa-me agora no passado
amor mais-que-perfeito,
no infinito, impessoal
a acontecer no tempo.

E eu acontecerei então,
no futuro, talvez presente
ou, devagar, quem sabe,
num lento gerúndio acontecendo.

Ou então, amor, espera por mim
no infinito do verbo
a acontecer eu
por aconteceres tu.

É que agora eu já nem sei
se eras sonho como um sonho,
se eras o pretérito perfeito,
sequer se aconteceste.



AntónioFMartins