sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Delírios (poemas do mar)

Delírios
(poemas do mar)


Enche-me a boca
de lírios
quando me vires
em delírios
na boca do mar
ou num mar de lírios
num delírio qualquer.


AntónioFMartins

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Abraço. Como se o poema fora teu (Poemas acerca de tudo)


Abraço. Como se o poema fora teu
Ao meu queridíssimo filho Ivo que assim se fotografou
(Poemas acerca de tudo)



Por entre simétricas sombras
de metal, plenas de nada e de tudo,
é tudo e sou tudo aqui, neste lugar.

E então eu, atrás de mim próprio
ou, quem sabe, atrás de mim à minha frente,
como que me escondo visível,
na escuridão brilhante da minha face
fechada em mim, sobre mim mesmo
e, semicerrando os olhos
envolvo-me num abraço apertado
como quem, entre braços,
nos meus braços marcados pelos sinais
— marcas das paixões que só eu sei —
das grades, da luz e das sombras
se confunde e se liberta em mim


AntónioFMartins


sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

O cuco (Poemas acerca de tudo)

 O cuco
(Poemas acerca de tudo)



Como um cuco
dou por mim
sentado nos ponteiros
do relógio
caindo do doze para o um
e do um para o dois
e para o três e o quatro
e o cinco e o seis
seguindo, seguindo
de volta completa
em volta completa
no círculo fechado
do meu próprio relógio.


E então, de novo no doze,
agora no doze completo,
no doze que é sempre o final
das horas todas do ano,
das horas derradeiras
do dia derradeiro,
como cuco, cumpro o meu papel
e vou-e-venho e venho-e-vou,
saindo e entrando
de um ano para o outro
sem dizer cu-cu, cu-cu,
mas desta vez gritando:
Novo ano, novo ano!


AntónioFMartins

01Janeiro2016

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Só há um rio em mim, meu amor (poemas do mar)

Só há um rio em mim, meu amor
(poemas do mar)


Só há um rio
em mim
meu amor.
Só há o Tejo.

Só há este,
o rio sem nascente
nem foz
quase sem margens.

O rio
que se estende
imenso
além e riba
Portugal.

Só há um rio
em mim
meu amor.
Só há o Tejo.

E uma canoa
arrastando a vela
pela rasante da lezíria
até Lisboa.

E um cacilheiro
de gente a transbordar
entre duas margens
e um voo de gaivota.

E uma traineira
e o mestre deste rio,
desaguando em Lisboa
um Tejo aqui, já quase mar.

Só há um rio
em mim
meu amor,
Só há o Tejo.


AntónioFMartins

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Amor com amor se apaga (Poemas acerca de tudo)

Amor com amor se apaga
(Poemas acerca de tudo)



Não me dês mais amor, amor,
que eu não quero, eu não mereço
este amor que me dás e que apago
como se apaga entre os dedos
a chama frágil duma vela.

Não me dês mais amor, amor,
que eu não quero, eu não mereço.
Que eu sou como um braseiro
ardendo brando no meu peito
apagado nas chamas da memória.

Não me dês mais amor, amor,
que eu não quero, eu não mereço
que me ames, que me pagues
com amor este amor que não existe
este amor que com amor se apaga.

Não me dês mais amor, amor,
que eu não quero amor de ti,
que eu não quero, eu não mereço
que me pagues com amor
este amor que com amor se apaga.



AntónioFMartins