Hoje vi uma das imagens que, a par com a de Aylan Kurdi (o menino sírio, de 2 anos morto na praia), desde sempre, mais me emocionaram. E eu não sou novo. Há milhões de imagens impressionantes que “falam” da guerra, de catástrofes imensas e dramas plangentes, eu sei. Eu sei e vi-as ao longo da minha vida toda. (E eu fiz a guerra). Mas esta que hoje aqui vos mostro, foi um dos maiores murros no estômago da consciência que já levei (e não foram poucos…) em toda a minha vida. Vi nela, se calhar o que mais ninguém verá, não sei. Mas eu vi ali tudo o que eu sou como homem, como cidadão, e, sobretudo, como pai. Provavelmente, ver-me ali como pai foi mesmo o que mais senti e me doeu da força bruta do tal murro. Acho mesmo que foi isso. Exagero piegas? Só exagero?
Não resisti e escrevi, quase compulsivamente, este poema que aqui vos deixo.
Deixa que te chame meu filho
(Poemas acerca de tudo)
Deixa, menino, que te chame meu filho.
Que me deite ao teu lado,
de cabeça encostada à tua,
sobre uma qualquer pedra
que sobre das pedras da tua cama.
Deixa-me dar-te um beijo,
terno e suave,
afagar-te o rosto e, depois, ficar só a olhar para ti
como quem olha para dentro do mundo.
Como quem olha em ti, assim adormecido,
um menino a ser ali, mais que o mundo;
O universo todo!
É que só uma alma imaculada
de menino como tu,
pode adormecer assim, tão serena,
sobre a dureza rude e fria
das pedras da tua cama, do teu chão.
Ou será maior que a dureza rude e fria
das pedras da tua cama, do teu chão,
a dureza da vida, quando acordas
e, acordado, tudo é guerra e morte e fome e pedra,
só pedra, cama e chão, meu filho?
Não te conheço e, meus Deus,
como fiquei a amar-te agora que te vi,
assim deitado, tão sereno,
tão bonito como um filho meu.
Como poderei esquecer-te, menino,
deitado sobre as pedras
das pedras da tua cama, do teu chão?
Como poderei esquecer
— agora que te conheci assim dormindo—
as vezes que ternamente aconcheguei
os lençóis macios da cama macia dos meus filhos
e lhes beijei, serenos, o rosto, o sono e os sonhos?
Como poderei agora continuar serenamente
por dentro dos meus sonhos agitados,
pensando em ti, adormecido sobre a dureza rude e fria
das pedras da tua cama, do teu chão?
Como poderá agora um pai?
Como poderá?
Um beijo pleno de ternura e tanta revolta,
meu filho agora.
António F. Martins
Em "Poemas acerca de tudo", é mesmo de tudo e sobre tudo que escrevo. Os "Poemas da guerra" são da guerra. A que fiz e a que ficou em mim. "Escrevendo e desenhando por Lisboa" e "Escrevendo e desenhando pelo Porto", é a minha poesia escrita sobre os traços dos meus desenhos das cidades e das gentes das cidades. É esta a poesia que aqui partilho. A minha poesia. Nada mais que escrita, escrita no perto da alma e no longe do olhar. A minha poesia e o meu olhar.
domingo, 14 de fevereiro de 2016
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016
Entre a terra e o mar, o meu país (Poemas do mar)
Entre a terra e o mar, o meu país
(Poemas do mar)
Descobrindo, andou sempre perdido o meu país,
entre a terra firme e o mar desconhecido,
entre o perto e a distância e uma foz sempre atlântica,
os brasis, as índias, as partidas e as chegadas
e tudo ali quase acabado no longe e no perto de Alcácer
Quibir.
Foi sempre assim o meu país: o tudo e o nada.
O Império todo e os Rossios que sobraram,
metade do mundo encravado no fundo da Europa
e D. João II e o Mostrengo, e o impossível mar
e um português firme, mais que Portugal, ao leme.
E logo ali cruzada no destino a glória e a tragédia,
a descoberta dos mundos todos por achar,
o naufrágio no escorbuto e na sede das miragens,
o longínquo do medo e dos mares novos,
nos mares de Camões nunca dantes navegados,
no mar que de longe, marinheiro a marinheiro,
trouxemos todo para casa
e em tanto dele
todos os dias navegamos e todos os dias
nele naufragando nos afundamos ainda.
Descobrindo, andou sempre perdido, o meu país,
entre a terra firme e o mar desconhecido.
António FMartins
terça-feira, 9 de fevereiro de 2016
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016
E eu que já nem choro (Poemas acerca de tudo)
Um poema que aqui
vos deixo e que hoje mesmo escrevi, na sequência das imagens de sem-abrigo que
há pouco vi e cujo link aqui publico. Vejam a impressionante carga humana e
dramática de cada uma das personagens magistralmente fotografadas por Lee
Jeffries:
E eu que já nem
choro
(Poemas acerca
de tudo)
Um a um,
rosto a rosto,
devagar,
entro em cada
rosto,
em cada olhar
que aqui vejo,
que me atormenta
e de que já não
sei sair,
aprisionado
neles
pela vergonha.
A minha vergonha
toda
à flor da pele.
Comovo-me.
Mas nem uma lágrima.
é que um homem
fica seco
quando sente que
a alma,
por instantes,
lhe morre no
peito.
E então eu sinto
que em cada
rosto,
em cada olhar,
em cada marca
profunda
gravada pelo
tempo,
no tempo de cada
um,
vejo neles, ali
à minha frente,
a humanidade
toda.
E vergonha,
sinto vergonha.
Um a um,
rosto a rosto,
devagar,
entro em cada
rosto,
em cada olhar
que aqui vejo.
Secou-se-me a
alma aqui.
Talvez perdida
no fundo do meu peito
e é só esta dor
que agora sinto,
só esta dor que
eu não entendo.
E eu que já nem
choro.
António F.
Martins
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016
Acontecer acontecendo (Poemas acerca de tudo)
Acontecer
acontecendo
(Poemas acerca
de tudo)
Eras o pretérito
perfeito
e aconteceste.
E, então,
incondicional,
chegavas do
nosso futuro,
e pretérito, o
presente,
subjuntivo
acontecia.
Deixa-me agora
no passado
amor
mais-que-perfeito,
no infinito,
impessoal
a acontecer no
tempo.
E eu acontecerei
então,
no futuro,
talvez presente
ou, devagar,
quem sabe,
num lento gerúndio
acontecendo.
Ou então, amor,
espera por mim
no infinito do
verbo
a acontecer eu
por aconteceres
tu.
É que agora eu
já nem sei
se eras sonho
como um sonho,
se eras o
pretérito perfeito,
sequer se
aconteceste.
AntónioFMartins
domingo, 31 de janeiro de 2016
Miklos Fehér (Poemas acerca de tudo)
Miklos Fehér
20-07-1979 /
25-01-2004
(Poemas acerca
de tudo)
Era Janeiro,
frio
e tu sorriste.
Um sorriso
lindo.
E então foi tudo
o final em ti.
Um sorriso lindo
de menino
e foste.
Um menino ainda,
como um qualquer
menino,
sorrindo
de sorriso
grande
de dentro
de idade
tão pouca.
É Janeiro,
frio
e tu ainda
sorris.
António F.
Martins
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