sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

O candidato que queria ser Presidente (Poemas acerca de tudo)

(Na entrevista colectiva (RTP1, 20 Janeiro 2016) aos candidatos à Pesidência da República, um dos entrevistadores fez reparo directo a Vitorino Silva (Tino de Rãs), pelo facto de este ser o único sem gravata...)



O candidato que queria ser Presidente
(Poemas acerca de tudo)



Não vem de fato?
Nem traz gravata,
senhor candidato?

E quer ele ser Presidente...

O candidato
é bem amanhado
bem educado,
de boas maneiras
e de boas falas,
sempre de fato,
camisinha branca,
colarinho escanchado
e gravata à cor,
bem apertada.
É mesmo assim.

Não vem de fato?
Nem traz gravata,
senhor candidato?

E quer ele ser Presidente...

O candidato fala e refala,
promete e não mete
a viola no saco
mesmo se a treta
cheira a banhada
e o freguês não aguenta
ele fala e refala
diz e rediz,
promete que cumpre
as promessas que faz
e promete até, que se for capaz
cumpre as dos outros também.

Não vem de fato?
Nem traz gravata,
senhor candidato?

E quer ele ser presidente...


E abraça e abraça
e beija e rebeija e aperta
a tarraxa da sua laracha
e grita e sussurra
e faz de nós gente burra
ele é velho é novo, é homem, mulher
ele é sempre o melhor candidato
que Diabo é só mais um voto que ele quer

Anda cá ó Zé, vem ver
é mais um, é mais um
que quer ser candidato.
Vê lá como ele é,
não traz gravata
nem  vem de fato.

E quer ele ser Presidente...



AntónioFMartins

22 Janeiro 2016

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Na tua Praça da Canção (Poemas acerca de tudo)

Na tua Praça da Canção
(Poemas acerca de tudo)
Com um abraço de gratidão, do fundo da memória, ao Manuel Alegre, nos 50 anos da primeira edição do livro "A Praça da Canção"


Eu moro ainda, Alegre,
na tua Praça da Canção.

Aqui, no centro de todas as cidades
onde moram, imortais, os poetas de Maio,
aqui, entre a morte e o crescimento das giestas.

Eu moro ainda, Alegre,
na tua Praça da Canção.

Aqui nesta cidade que é Lisboa
sempre à espera do amigo, irmão tão breve
voltando da guerra Tejo acima, sobre as águas
em que escreveste com ternura , dor e mágoa
os nomes todos dos teus mortos amados,
um a um guardados no fundo da memória.

Eu moro ainda, Alegre,
na tua Praça da Canção.

Aqui  em cada rua onde já não passa o teu amigo
e lembro ainda as flores de Maio saindo dos sorrisos
e um cigarro num cigarro apagado nas cinzas da memória
numa qualquer avenida plena de gente e liberdade
cantando a cada porta os mortos amados e o poema.

Eu moro ainda, Alegre,
na tua Praça da Canção.

É aqui que eu moro ainda e é aqui que, um a um
ainda me dou inteiro aos graves Maios,
imaginando sempre um sorriso florindo em lágrimas
e os cravos todos de Abril como cristais, em Maio,
partindo-se plangentes no fundo de mim.
Aqui eu vejo ainda o teu amigo trazendo no sorriso
a flor do mês de Maio e o seu retrato em cada rua,
pendurado no fundo da memória ainda perturbada,
pela cidade e pelas ruas onde agora já não passa,
nestas ruas onde começa a mágoa e a poesia toda.

Eu moro ainda, Alegre,
na tua Praça da Canção.

No coração dos poetas aqui poisados sobre o tempo,
sobre o poema e a ausência, nesta Lisboa sempre à espera.
Nesta Lisboa talvez esperando mês a mês o mês de Maio.

Eu moro ainda, Alegre,
na tua Praça da Canção.

Aqui, por dentro das cidades da cidade.
Aqui, por dentro das cidades onde moram os poetas,
ou numa qualquer cidade onde haja uma praça
e de onde saiam, planas e plenas a canção e a Liberdade.
Nesta cidade sempre à espera do teu amigo.
Aqui, nesta Lisboa como canção com lágrimas.
Eu moro aqui, Alegre. Ainda.


AntonioFMartins

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Delírios (poemas do mar)

Delírios
(poemas do mar)


Enche-me a boca
de lírios
quando me vires
em delírios
na boca do mar
ou num mar de lírios
num delírio qualquer.


AntónioFMartins

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Abraço. Como se o poema fora teu (Poemas acerca de tudo)


Abraço. Como se o poema fora teu
Ao meu queridíssimo filho Ivo que assim se fotografou
(Poemas acerca de tudo)



Por entre simétricas sombras
de metal, plenas de nada e de tudo,
é tudo e sou tudo aqui, neste lugar.

E então eu, atrás de mim próprio
ou, quem sabe, atrás de mim à minha frente,
como que me escondo visível,
na escuridão brilhante da minha face
fechada em mim, sobre mim mesmo
e, semicerrando os olhos
envolvo-me num abraço apertado
como quem, entre braços,
nos meus braços marcados pelos sinais
— marcas das paixões que só eu sei —
das grades, da luz e das sombras
se confunde e se liberta em mim


AntónioFMartins


sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

O cuco (Poemas acerca de tudo)

 O cuco
(Poemas acerca de tudo)



Como um cuco
dou por mim
sentado nos ponteiros
do relógio
caindo do doze para o um
e do um para o dois
e para o três e o quatro
e o cinco e o seis
seguindo, seguindo
de volta completa
em volta completa
no círculo fechado
do meu próprio relógio.


E então, de novo no doze,
agora no doze completo,
no doze que é sempre o final
das horas todas do ano,
das horas derradeiras
do dia derradeiro,
como cuco, cumpro o meu papel
e vou-e-venho e venho-e-vou,
saindo e entrando
de um ano para o outro
sem dizer cu-cu, cu-cu,
mas desta vez gritando:
Novo ano, novo ano!


AntónioFMartins

01Janeiro2016