sábado, 19 de março de 2016

Um HOMEM sobreviveu em Auschwitz (Poemas acerca de tudo)


Neste dia do Pai, um poema que dedico ao Ivo e ao David, filhos queridíssimos e pequenos companheiros das nossas peregrinações familiares pelos campos do terror, lá longe. Com um beijo, que sabemos, eu e a vossa mãe, vos ficará, indelével como legado depositado na orientação que vos demos e que, certamente, ireis dar às vossas vidas e no entendimento que dela, acerca do verdadeiro significado de ser HOMEM sempre fareis. Um beijo do fundo da memória na vossa memória que é o bem mais precioso que vos deixamos e o mais digno e pesado lastro que um HOMEM pode ter.
Transmitam aos vossos filhos e aos filhos dos vossos filhos: Que nunca mais!


Um HOMEM sobreviveu em Auschwitz


 Um HOMEM sobreviveu em Auschwitz
porque lhe mataram a amada mulher,
os queridíssimos filhos, os saudosos pais,
os irmãos, um amigo e outro e outro e outro.

Um HOMEM sobreviveu em Auschwitz
morrendo acordado num sono profundo,
numa caserna de madeira, frio e morte,
como que naufragado num oceano de desgosto.

Um HOMEM perguntou-se em Auschwitz:
O quê é aqui?
O que faço aqui ?
Porquê?
Porquê?

Deveria um HOMEM, cada HOMEM, ter o seu Auschwitz
e sobreviver?

Um HOMEM sobreviveu em Auschwitz
porque lhe mataram a própria raiz.

Um HOMEM morreu, sobrevivendo em Auschwitz.

Um HOMEM, estando, nunca esteve em Auschwitz.

Que sabem, vocês, os que nunca estiveram em
em Auschwitz?

Nenhum Homem sobreviveu em Auschwitz.


António F. Martins


terça-feira, 15 de março de 2016

Balada do mar Tirreno (Poemas do mar)

Balada do mar Tirreno
(Poemas do mar)



Perguntas-me, sereia:
Serei a sereia mais bonita
entre as sereias, meu amor?

Mas eu não te ouço
e não respondo ao encanto do teu canto
e resisto amarrado
aos mastros fortes dos destinos.

E tu perguntas-me de novo:
Serei a sereia mais bonita
entre as sereias, meu amor?

E eu que não sei o que te diga
porque não quero dizer o que queria,
nada te digo
e amarro-me mais aos mastros fortes
como se não quisesse abraçar-me a ti.

E então eu peço-te que não,
que não me chames mais,
que me deixes partir,
voltar ao Tejo e à minha mãe
e invoco Achelous e Terpsícore
e os meus ouvidos que não ouvem
e o meu corpo amarrado
aos mastros fortes do destino.

E do teu canto tão perdido já no vento
e no longe da distância, eu já não sei se fiquei,
se parti, onde estou, se é o mar, se é o vento,
se é a ti que sem ouvir eu ouço ainda:

Serei a sereia mais bonita
entre as sereias, meu amor?

Diz-me que sim
e eu serei a sereia mais feliz.


António F. Martins

Imagem: Mermaid swimming with a child de Amelia Bauerle)


domingo, 13 de março de 2016

Mar de Portugal (Poemas do mar)

Mar de Portugal
(Poemas do mar)


Não sei hei-de gostar de ti,
se hei-de temer-te, mar,
quando te sinto todo em fúria
a vires às minhas costas
e eu carregando sozinho o peso imenso
de trazer-te sempre comigo.

Há quase mil anos, mar!

E as tempestades, as bonanças,
as tragédias, as conquistas,
o longe, para além do longe
e as minhas gentes, uma pátria inteira
curtida no sol todo do teu sal.
E, de ti, nas redes, quase sempre só a fome,
quase sempre só as velas, os mastros,
caravelas e uma vaga perpétua que nos cobre
e de nós sai por entre os ventos, a ti voltando.
A ti voltando sempre, mar.

De Portugal.



António F. Martins

segunda-feira, 7 de março de 2016

De Alcácer Quibir e não voltei


De Alcácer Quibir e não voltei



Eu venho lá de trás
do princípio da História,
de Afonso, rei primeiro
erguido em São Mamede
do colo agreste de sua mãe
e do aço afiado da espada
que, temperada na forja
assim forjou uma nação
maior que a História
a terra toda, os mares imensos,
mais que um rei ali então adivinhara.

Eu venho lá de trás
do princípio da História,
da História que trago viva
correndo-me nas veias
há quase mil anos,
perdido e encontrado nos ventos,
galgando as terras e as marés
do sul, ao norte, em todo o mundo,
correndo na garupa inquieta dum ginete
ou navegando na proa arribada duma nau.

Eu venho lá de trás
do princípio da História,
do pinho, da nau e do mastro,
da vela latina aos sete ventos
em oceânicas bolinas
pelas desconhecidas distâncias
que tantas vezes achando,
em mim, aqui, tantas vezes se perderam
em cada partida e em cada chegada.

Eu venho lá de trás
do princípio da História,
de conquista em conquista,
empunhando lado a lado a espada e a cruz,
às vezes naufragando no escorbuto
ou emergindo dos fundos oceânicos
levantando na mão um poema à tona da água
e nela tantas vezes morrendo de sede
por entre as vagas, a espuma e tanto oceano.
E, lá longe, na pátria, toda a pátria à minha espera.

Eu venho lá de trás
do princípio da História,
dos lados todos do mar
sem margens, sem rumo, marinheiro
amarrado aos mastros da distância,
navegando numa nau feita de ventos
e ondas e sal e mundos novos
ou atraído pelo canto das sereias
saídas dos sonhos, das tempestades
ou encalhado em cada proa do destino.

Eu venho lá de trás
do princípio da História,
das vastas vastidões por encontrar,
dos mares todos às terras que não sei,
dos continentes que não eram ainda continentes,
dos mares distantes ainda mares por nomear
e onde morri e renasci nas neblinas
numa nau ou no dorso dum cavalo lusitano,
correndo em fúria no meu sangue
derramado nas memórias da memória
de Alcácer Quibir e não voltei.

Eu venho lá de trás
do princípio da História.


António F. Martins