segunda-feira, 16 de maio de 2016

Garganta, Jesus, garganta


Nem sempre um Homem consegue dar a outra face... Por não o fazer, Jesus, filho de Deus, perdoa-me lá desta vez...




Garganta, Jesus, garganta



Ensina-me ó Jesus
a saber comer as pipocas
que do pacote tão cheio
me caiem às 35 no colinho
e me sujam os bancos
de linda pele de leão
deste poderoso Ferrari
que tanto agora te atormenta.

Ah, Jesus, como em vão trocaste
tantos cavalos de potência:
seis milhões, Jesus, seis milhões
por uma mão cheia de tão pouco,
pouco mais que um Calvário
que o outro Jesus, o verdadeiro,
não mereceu mas tu mereces.

Cuida, Jesus, que os espinhos
não te cheguem à garganta,
cuida, Jesus, cuida bem dela.
É o melhor que ainda tens.


António F Martins




domingo, 15 de maio de 2016

sábado, 14 de maio de 2016

Deixa-me no tempo


Deixa-me no tempo


Deixa-me partir agora, meu amor
e não me sigas, sequer com o olhar.
É o meu tempo o que procuro,
o meu tempo no longe da distância,
o tempo talvez perdido no próprio tempo da viagem.
É que eu não sei bem, meu amor, para onde vou,
aqui entre a terra, o céu e o mar,
nem sei sequer se de ti partindo
saberei chegar sozinho a algum lugar.

Deixa-me partir agora, meu amor.



António F. Martins


quinta-feira, 12 de maio de 2016

Fala do cão mais velho

Fala do cão mais velho
(E que tem nome de arquitecto, o Siza,
ao lado do Lobo, à espera que o dono comece
a prometida futebolada...)


Olha para nós, dono
aqui sentados, à tua espera,
já se põe além o sol
e tu não vens jogar connosco?

Olha para nós, dono,
eu estou como tu “gostas”:
sentadinho, quieto,
como aquele de que me falas
e me repetes que eu pareço:
o da loja dos trezentos.
E o Lobo que pela língua
parece já cansado
mas que não tarda
me vai atropelar como um Bulldozer.

Olha para nós, dono
aqui sentados, à tua espera.
Se não vens já, chamamos a dona.
Não joga pior que tu.
(E tu vais cortar a relva...)

Anda lá, dono!


 António F. Martins

domingo, 1 de maio de 2016

Dos Açores à guerra


Em Abril de 1973 era a guerra e eu partia para Moçambique com a minha companhia formada nos Açores. Nunca irei saber se os soldados açorianos foram ou não os melhores combatentes daquela maldita guerra. Mas há duas coisas que eu sei: foram valentes como os melhores e dos que foram, muitos, mesmo muitos não voltaram. Como homens — que é o que verdadeiramente mais me interessa, foram, lá longe, no meio do mato e do nada do norte do Niassa, exemplares e de exemplar e invulgar amor às suas terras, ao seu mar e às suas gentes. Pescadores e lavradores quase todos. É um abraço forte o que aqui lhes deixo.





Dos Açores à guerra


Eu trago, companheiros,
nove ilhas cravadas no meu peito
e a saudade toda, a desfazer-se
em sonhos de alva espuma
contra a rocha firme do meu pensamento
erguido do fundo do Atlântico,
do mais fundo do Atlântico
no meio do Atlântico.

Não trago nomes de amigos,
dos amores, de pai ou mãe
gravados no meu peito,
nem trago a terra verde ou o mar azul
na boca de um vulcão.
Uma gaivota, só uma gaivota
que, inquieta, vai esvoaçando
no meu peito e nele não pousa.

Sou agora, aqui, um arquipélago todo
em movimento.
Nove ilhas, uma a uma
alinhadas ao longo do meu destino,
ancoradas nesta terra
vermelha e seca e quente e verde,
exuberância de sentidos e odores e gente
e odores e gente e odores e outra gente.

Aqui, não tenho casa.
Aqui não é a minha casa.
Nem esta gente é a minha gente.
Aqui, não tenho a minha gente.

E os odores, e os odores.

Os odores, aqui não são de sal nem de peixe,
sequer da terra, do verde da minha terra
sempre a cair, lavrada e pronta para o mar
que, lá em baixo a recebe e a abraça.
É a minha terra feita uma gaivota
ao sabor das marés que, de longe
me vão salpicando o pensamento e a saudade.

Eu trago, companheiros,
nove ilhas cravadas no meu peito
e a saudade toda.


António F. Martins


Adormecendo em ti, mãe

À minha mãe, Celeste



Adormecendo em ti, mãe


Mãe, eu, às vezes, muitas vezes, ainda tenho medo.
Muito medo, minha mãe.
Às vezes, muitas vezes, nas noites do meu quarto,
eu acordo no silêncio dos silêncios e, num grito,
chamo: Mãe!

Às vezes tenho medo, mãe.

Um medo que não sendo já do escuro,
me lembra ainda um suave lençol tão perfumado
em que, quieto e ausente da noite, me escondia
do medo do medo de ficar sozinho,
do medo do medo de chamar por ti
e tu não estares no quarto ao lado.


Mãe, eu já não tenho medo do escuro.
Eu só tenho medo, agora, de ter medo.
talvez o medo que nem toda a claridade
apaga ainda em mim:
O medo de olhar-te o rosto e não ver o teu sorriso,
de te querer comigo e estares ausente.
E então, de dentro dum lençol suave e perfumado,
saio do medo e parece que volto, pequenino,
à minha infância e ao teu colo, minha mãe.
De novo ao teu colo.

Aninho-me em ti , dou-te um beijo, acaricio-te as mãos
e adormeço em ti.


António F. Martins
1Maio2016