quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Balada para um regresso (poemas da guerra)

Balada para um regresso
Ao Mateus
(poemas da guerra)


Quando voltares, amigo,
estaremos todos
de pé à tua espera
num qualquer lugar
das nossas histórias,
talvez num qualquer lugar
daqueles lugares
que só em nós existem
e só em nós ficaram
como marca indelével
das nossas vidas de soldados.

Quando voltares, amigo,
estaremos todos
de pé à tua espera
como quem espera a sua vez
para voltarmos a caminhar juntos,
um atrás de cada um,
de armas aperradas
andando pelos silêncios
das silenciosas matas
que tanto percorreste
ou, lado a lado, em cada emboscada
que te preparou a guerra e a vida.

Quando voltares, amigo,
estaremos todos
de pé à tua espera
numa qualquer esquina
das ruas do Porto que pisavas
porque não foi só na guerra
que se perdeu a tua vida
foi, talvez, na tua própria vida
que perdeste a tua guerra.
Quando voltares, amigo
estaremos todos
de pé à tua espera.

À espera de nós todos, quem sabe.
Descansa agora.
Um beijo.

António F. Martins




terça-feira, 4 de outubro de 2016

Canto das pedras e das flores

Mais um poema que, com um abraço aqui vos deixo, dedicado a Pescanseco (*).
Às pedras de Pescanseco.


Canto das pedras e das flores


Fez-se a pedra em flor
regada com pingos de ti mesmo
do suor com que arrancavas
da terra funda, da pedreira,
pedra a pedra as pedras secas
que sustentaram uma a uma
as calçadas das terras do teu pão,
socalco a socalco como degraus
em passos de gigante, encosta acima
as paredes altas das ribeiras
e as paredes das casas que fazias.
A tua casa pedra a pedra,
a tua vida toda ali e o teu caixão
feito de pedras talhadas, de musgos
e pequeninas flores do nada
nascidas no tudo da pedra bruta
que cavavas do fundo da terra
como se cavasses no fundo
dos teus sonhos todos.
E ali, com a pedra, pedra a pedra
fizeste tudo e o teu futuro.
Deixa agora que voltem a crescer,
das pedras que deixaste
as flores bravias como tu.
Já não há paredes, já não há portais,
já não há muros, já não há casas
já não há nada de pedra para fazer.
Só a pedra que se fez em flor.


António F. Martins



(*) Aldeia do Concelho de Pampihosa da Serra, na Beira Baixa.




sexta-feira, 30 de setembro de 2016

O mar todo a acontecer em mim (poemas do mar)

O mar todo a acontecer em mim


Quantas ondas tem o mar
que eu não conheça?
Quantos mares tem o mar
que eu não tenha já navegado?
E o vento? E os ventos?
Quantos ventos sopraram já
que não fosse nas velas acesas
da coragem do meu povo,
esta gente desta terra, aqui,
junto ao mar todo dos mares,
no sul do tudo que é o tudo
do tudo perto e do tudo longe?
Que eu sou neste lugar fundeiro da Europa
uma rocha erguida junto ao mar
e o mar todo a acontecer em mim.

Quantos de mim adormeceram
no embalo do mar chão
ou no revolto pereceram
entre espuma e ondas bravas
no medonho, no agreste
dos profundos mares que naveguei
tantas vezes sem vento
e tantas vezes sem mar
sempre em busca do sul, do norte,
de todos os pontos  cardeais
que no mundo o mundo tem
e neles achando sempre o rumo?
Que aqui, mais que pátria ou que nação,
eu sou um barco, uma vela, a minha gente
e o mar todo a acontecer em mim.


António F. Martins

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Asia Ramazan Antar. Um tiro, um estilhaço e tu morreste ali.

Uma singela homenagem a Asia Ramazan Antar, mulher, mãe, soldado, curda, 22 anos. Morreu a combater pelo seu povo e pela liberdade contra a brutal opressão e a odiosa tirania do Daesh, num qualquer lugar junto à fronteira da Síria com a Turquia.



Asia


Um tiro, um estilhaço
e tu morreste ali, naquele lugar
quase em lugar nenhum
de todos os lugares assim
que há no teu mundo.
Na guerra.
Mas ali era o teu lugar,
o lugar que quiseste,
a tua pátria toda em cada palmo
de sombra da sombra
que naquela terra o sol te dava.

Um tiro, um estilhaço
e tu morreste ali, naquele lugar
a combater a besta, a própria morte
e a tua vida tanto tempo adiada
e a guerra e a pátria curda
tanto tempo adiada
e a morte e a morte e a morte
e tu ali, mulher, mãe, soldado, mulher
e naquela areia a terra toda do teu povo
na ponta firme duma espingarda
apontada à opressão, à tirania
pela mira certeira da coragem.
Da tua coragem, Asia.

E então, um tiro, um estilhaço
e tu morreste ali, naquele lugar.
Mulher, mãe, soldado, mulher,
coragem.

Um beijo.


António F. Martins