segunda-feira, 29 de junho de 2015

Eu sou daqui (Escrevendo e desenhando por Lisboa)


(“Não tenham medo da fama / de Alfama mal afamada /
a fama às vezes difama / gente honesta, gente honrada”
Excerto de poema de Francisco Radamanto-Conde de Sobral)

Eu sou daqui
À minha rua do Barão, onde nasci)
(Escrevendo e desenhando por Lisboa)


Eu sou daqui,
da rua do Barão.
A que à sombra da Sé
desce até São João da Praça,
ali morre e ali começa.

Aqui, era o pregão
e o pé descalço,
o operário,
os ofícios,
a varina,
o bibe sujo da criança
e uma bola,
uma guitarra
e um fado
desgarrado noite dentro,
e a meia porta,
o rufia,
 o toque das Trindades,
o incenso
e a procissão.

Aqui, era uma aldeia
inteira na cidade
e uma mão cheia mas fechada,
estendida a outra mão,
de janela para janela.
E era a tarde a entrar,
todos os dias às Trindades,
pelas janelas par em par,
e um cheiro a peixe
que é de Alfama,
e em cada viela
uma calçada feita em tejos.

Eu nasci aqui
e daqui saí
há muito tempo,
ainda menino,
muito menino.
Mas eu acho que,
verdadeiramente,
nunca se sai
do lugar onde se nasce,
nem dele se arrancam
todas as raízes.

É que, as pessoas
são como as árvores:
quanto mais a sua copa
se afasta da terra,
mais as suas raízes
 nela se entranham.




AntónioFMartins


Sombras da cidade (Escrevendo e desenhando pelo Porto)


Sombras da cidade
(Escrevendo e desenhando pelo Porto)


De longe,
sobre os desalinhados
telhados do Porto,
desenho a Sé,
o Paço Episcopal
e a Igreja do Grilo,
uma cidade
colorida de cinzentos,
muitos cinzentos
feitos de pedra.
Cinzento pedra e cor,
ora em agreste
claro-escuro,
ora em suaves
e diluídas sombras.

É a terna poesia
das pedras,
firmes e seculares
enfrentando
de pé o tempo
e a memória
da cidade.

Acabo o traço
lançado no Canson,
guardo o meu lápis
e abrigo-me
numa aguarela
de cinzentos
nas sombras
da cidade.

É o Porto, aqui.


AntónioFMartins


sábado, 27 de junho de 2015

Da rua Augusta vejo o Arco e o Tejo (Escrevendo e desenhando por Lisboa)


Da rua Augusta vejo o Arco e o Tejo
(Escrevendo e desenhando por Lisboa)


Sem medo
do trânsito automóvel
há muito afastado
desta rua,
por aqui, anda-se
e respira-se melhor.

Gosto de olhar
cá bem do cimo
para o fim da rua
e, com a perspectiva
afunilada,
lá no fundo,
quase parecendo
a nascer já do Tejo
ver o Arco.

O triunfal Arco.

Agora
descerei a rua
e olharei as montras
uma a uma.
Sentirei por certo
os odores do Oriente
já tão entranhados
na cidade
e a cidade toda aqui,
exposta, brilhante
e, ao mesmo tempo
decadente,
atrás de cada vidro.

Lá no fundo,
o Tejo,
sempre com pressa
de correr para o mar,
chama-me.


AntónioFMartins


Um traço de paixão (Escrevendo e desenhando pelo Porto)



Um traço de paixão
(Escrevendo e desenhando pelo Porto)


Não tem pressa
o meu olhar
nem vagares
a minha mão,
e o lápis grosso
corre devagar
pelo papel.

É só um esboço,
que aqui não há rigor
há só paixão,
e eu, por vezes,
gosto de desenhar
assim as cidades.

Só paixão.

Gosto de desenhar
assim o Porto
e sabe-me bem,
às vezes,
trocar o rigor
pela paixão.

Vou acabar
o meu desenho.

Olho para cima
e só vejo céu
e pedra sobre pedra,
 igrejas,
telhados
e uma cidade inteira
sobre um rio.

O Porto
parece que flutua
e, sem qualquer rigor
 vai até à foz,
 namora um pouco
com o mar
e logo volta.

Volta sempre
ao Douro.

É a paixão,
só a paixão.

AntónioFMartins



Igreja de Nossa Senhora da Vitória
e Mosteiro de São Bento da Vitória)


Praça do Rossio (Escrevendo e desenhando por Lisboa)


Praça do Rossio
(Escrevendo e desenhando por Lisboa)
“...Na pátria dos poetas em Rossio triste...” (Manuel Alegre)

Eu regresso sempre
ao profundo da cidade,
eu gosto de regressar
ao profundo da cidade,
ao mais profundo
que Lisboa tem
e que eu encontro
no cimo de uma colina
empinada sobre o Tejo,
ou no mar chão
sereno e plano
da baixa pombalina
que é como quem diz:
no chão sereno
e plano da Lisboa
mais velha de Lisboa.

Chego cansado
ao Rossio
e já por aqui não vejo
nem o Alegre nem o Cília,
já por aqui não passam
os poetas e os cantores
do meu país
e sinto-me também
eu triste
em Rossios tristes.
E, então, baixinho,
arrisco só para mim:

Quando desembarcarmos no Rossio canção / vão dizer que a rua não é um rio / 
vão apresar o teu navio / carregado de vento carregado de pão /
Dirão que trazes tempestades / Dirão que vens de espada em riste /
Dirão que foi sangue o vinho que pediste /Quando desembarcarmos 
no Rossio /Vão vestir-te com grades / Que é um vestido para todas as idades /  
Na pátria dos poetas em Rossio triste (...)
(Excerto de poema de Manuel Alegre musicado e cantado por Luís Cília)

AntónioFMartins